Hoje tem espetáculo!
As pessoas estão lá fora e nós estamos aqui dentro nos preparando. Já verifiquei a luz, o som, os objetos de cena. Agora tá tudo certo, embora tenha havido algum “stress” lá pelas 19h por causa de um problema na instalação elétrica. Mas agora tá tudo bem, os atores estão se aquecendo no palco, tá um clima bom entre todos, uma apreensão que tem a ver com ansiedade. Ansiedade boa. Daquelas que dá quando você está prestes a entrar na Montanha Russa, sabe? Enchemos o ambiente de fumaça para dar um recorte bonito na luz e para fazermos o “aquecimento psicológico”. Música enchendo o lugar, enchendo nossos ouvidos. Lá fora a galera ta na fila, sossegada, na expectativa de ver um bom espetáculo. Expectativa de ver os atores fazendo acontecer a vida no palco. Tem pessoas conversando em grupo, tem o cara que veio sozinho e que encontrou o casal de amigos, tem o trio de amigas comendo pipoca antes de entrar e tem o crítico que veio ver a nosso convite. Quem sabe não sai uma ‘críticazinha’? Mesmo se for falando mal. Aqui dentro estamos no final da preparação, os atores se emocionam comedidamente (pra não gastar tudo agora – rsss), aumentam o ritmo, encaixam as respirações. Tudo pronto. O bilheteiro veio perguntar se já pode abrir. Nós falamos que ainda não, pra esperar mais 5 minutos. Começamos nosso ritual costumeiro: todos se abraçam, alguns entoam um mantra desconhecido, outros rezam, tem gente que fica em silêncio. Depois gritamos. O pessoal da fila, o público, ouve e ficam com o desejo mais aguçado de entrar. Os atores vão para seus lugares, alguns permanecem em cena para a entrada do público. Luz azul, luz verde, luz vermelha, todas acesas a meia potência. As pessoas começam a entrar em meio à luz e à fumaça. Notam os atores em cena, o cenário. Sentam-se. As respirações conspiram a favor, a primeira impressão foi boa. A porta é fechada após o bilheteiro também se sentar num dos lugares da platéia. Hoje ele também vai assistir. A casa está quase cheia. Dá pra sentir o friozinho na barriga dos atores e o meu. Um ‘medinho’ lá no fundo, medo gostoso de sentir. A luz vai diminuindo. As respirações se suspendem. Tudo escuro. Vai começar o espetáculo.
Escrito por Screamer às 13h33
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