Musica
E foi então que eu abdiquei de ouvir meus discos, aficcionado que sou por música, e passei a ouvir a música das pessoas. Comecei por meus amigos.
Deixei Tom Waits passando a ouvir o Ernesto
Deixei Maysa e adotei Sérgio Coelho.
Abandonei Stones, buscando Rui Longo.
E em vez do Max de Castro, o César Ribeiro.
Larguei o Mundo Livre e assumi o Cleiton Pereira.
Na prateleira ficou Cartola e em meus ouvidos ficou minha irmã, Karina.
Preferi Luiz Marcelo a Radiohead.
E Luiz Felipe a João Nogueira.
O som de Arthur Netto vem hoje ao invés de Portishead.
E Cassia Eller substituí por minha mulher, Alê.
Gonzaguinha perdeu o lugar para a Eva.
E Gonzagão para Dona Teresinha.
Tenho buscado o Evandro pra substituir o Maurício Pereira.
E a Karú no lugar do Karnak.
Tenho já a Carolouca no lugar de Noel.
O Tiago Ratinho para Velvet Underground.
E vou buscando a Camilinha no lugar do Chico.
Telma no lugar de James Brown.
Marquinhos no lugar do Led.
Ruth entrou onde havia Drum'n'Bass.
E minha amada mãe no lugar do Robertão.
Tenho ouvido o Meyson no lugar do Lenine.
E a Pitchú no lugar do Moska.
A Helô vem pra o lugar do Sonic Youth.
E o Pedrão pra eu deixar Vinicius.
E quando penso em ouvir Los Hermanos, penso tanto na vida que vou correndo ouvir aquele que é (e suspeito que será por muito e muito tempo) o meu melhor amigo: meu filho Léo.
É um "hit parade" e tanto, escutar as pessoas e sua música. Estou iniciando esse exercício-descoberta e a única coisa que sei por agora é que ouvi-los, ouvi-los de verdade com os ouvidos e a alma, tem sido realmente difícil. São muitas verdades que vêm à tona, são muitos e muito fortes os sentimentos que tenho por eles. E essa música é complexa, generosa, sábia e, na maioria das vezes, de difícil acesso. Assim, eu os vou escutando e acostumando meus ouvidos para novas canções.
Escrito por Screamer às 22h38
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